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Readers - entrevista com Rui Cid (Junho 2007) - tradução Rui Cid Rui Cid contactou-me em Junho de 2007 para me perguntar se eu faria uma entrevista. Eu aceitei e aqui está ela... (Há uma versão disto em Inglês aqui) --------------------- Rui Cid: Antes de mais, como é que o seu interesse pela escrita começa? Qual é o lugar que ela agora ocupa na sua vida? É a escrita o seu meio favorito para vincular histórias (em oposição aos videojogos)? Ricardo Pinto: Eu não consigo realmente distinguir a escrita de qualquer outro dos meus muitos e variados interesses. Para mim, escrever é apenas um meio... E eu poderia escolher exprimir-me através da pintura, ou da música, ou da jardinagem etc etc. Contudo, eu passei agora mais de doze anos a escrever quase diariamente e, por isso, desenvolvi esta aptidão a um maior grau que outras. A semelhante década (aproximadamente) que passei a desenhar jogos de computador continuou o desenvolvimento de outra aptidão, nomeadamente: a construção de mundos. Através da qual eu pretendo a criação de um sistema imaginado que seja integrado, fechado e coerente. Esta foi, em si própria, uma aptidão que eu tinha estado a desenvolver desde o decorrer da infância, e foi a aptidão dominante que eu apliquei como minha primeira abordagem à escrita de livros... Como pode ser constatado em "Os Escolhidos"...Eu acredito, tal como os Chineses, que qualquer aptidão é atingida através do "tempo empregue". Todos temos um certo montante de tempo para investir no desenvolvimento de algumas aptidões. Aquelas que escolhemos determinam o tipo de pessoas em que nos tornamos... RC: A Literatura Fantástica foi algo em que sempre esteve interessado? O que é que costuma ler? RP: O meu primeiro amor foram, provavelmente, os contos de fadas... A partir dos quais eu desenvolvi uma paixão pela mitologia, concorrentemente com uma obsessão pela história antiga... Que então se generalizou para um amor e contínuo estudo de toda a história. Contudo, aliado a isto estava um interesse em muitos ramos da ciência e, daí, a ficção científica. Geralmente, eu agora não leio muita ficção, a maior parte são livros não ficcionais de história, filosofia e de muitos outros assuntos. Contudo, actualmente eu estou a tentar ler tanta ficção/fantasia quanto posso, assim como todos os géneros de Clássicos mais antigos. (Acabei finalmente o "Guerra e Paz" recentemente) Não só para aprender com outros escritores, mas também para obter alguma ideia acerca de onde é que os meus livros se encaixam...Algo que, de alguma maneira, me confundia... RC: Como (e quando) é que a ideia de escrever "A Dança de Pedra do Camaleão" surgiu? Sabia, na altura, a tarefa massiva que isso acabaria por se tornar? RP: A história inicial era, na verdade, uma alternativa a algo como "O Senhor dos Anéis" ou a "Dune" o que me providenciaria com sujeitos para ilustrar... Porque naquela altura eu estava mais preocupado em fazer imagens do que histórias. Eu escrevi a primeira versão do que se viria depois a tornar "A Dança de Pedra do Camaleão" em 1982, durante as férias de Verão, enquanto estava a completar o meu curso em Matemáticas. Depois ingressei nos jogos de vídeo e várias outras actividades relacionadas e esqueci-me inteiramente do meu livro. Foi apenas mais tarde, quando me havia tornado desiludido pela indústria dos jogos de vídeo, que sacudi o pó da minha ideia para uma história e, por alguma razão, decidi fazê-lo seriamente. Na altura eu sabia que seria concebida em três partes, mas assumi que estas se encaixariam num só volume... E eu não fazia a menor ideia do quão massivo tudo isto iria ser. Afinal de contas, eu tinha, não só, uma versão escrita integral de 1982... E uma versão, mais recente e mais desenvolvida das partes 2 e 3 que eu tinha escrito esporadicamente durante os intervalos na minha carreira nos jogos. Estas (versões) pareciam proporcionar um guia para o trabalho mais recente e eram BASTANTE mais curtas do que foi agora publicado. RC: Poderia descrever-nos um pouco do processo criativo inerente a um trabalho com a dimensão e profundidade de "A Dança de Pedra do Camaleão"? Começou por construir o cenário, as diferentes culturas, as diferentes formas de vida e a geologia das Três Terras? Ou, pelo contrário, foi a história e o argumento que primeiro começaram a tomar forma na sua mente? RP: Devido à minha experiência em criar mundos de computador em 3D, eu concentrei-me, inicialmente, na criação do mundo para os livros. Algo disto encobriu a falta de confiança que eu tinha, acerca de ser capaz ou não, de escrever personagens, de todo. Contudo, a história na sua forma mais básica estava lá o tempo todo. Só recentemente é que eu descobri como é que ela se ergueu das profundezas do meu subconsciente e porquê... O processo de escrita em si é, realmente, bastante complexo e eu não sei se o conseguiria descrever de forma simples. Em algumas maneiras eu desenvolvi a estrutura de todo o livro como o plano arquitectural de uma catedral. Mas de outra maneira, a escrita dos livros é uma espécie de exploração. Seguindo uma espécie de mapa. Eu viajo através da minha história... E quando chego lá eu consigo, efectivamente, "ver" os lugares e os eventos... Eu ouço os personagens a falar e eu apenas escrevo isso tudo Noutra maneira, eu escrevo guiões e, depois, como que os "filmo" e o que escrevo é o que a câmara vê... RC: Dado a quantidade de detalhe e complexidade na construção do mundo de "A Dança de Pedra do Camaleão", nunca se sentiu prestes a desistir? Quanto tempo é que passa no aperfeiçoamento do mundo em si mesmo (com pesquisa) em comparação ao efectivo processo de escrita? RP: Muitas vezes estive em desespero porque me encontrei aprisionado neste projecto... Que é como um túnel muito, muito longo, que eu tenho de atravessar até ao fim para escapar. Como disse anteriormente, eu não fazia qualquer ideia que isto me levaria algo parecido a esta quantidade de tempo. Isto suscita vários problemas, o menor deles não sendo, é claro, que durante tanto tempo eu estava a mudar enquanto pessoa e escritor e, até certo ponto, a forma do "túnel" constrangeu estas mudanças. Por outro lado, eu tive também muitas outras ideias para trabalho que tive de ignorar durante anos. E também pus várias coisas na minha vida em suspenso até os livros estarem terminados... Houve uma altura no meio do segundo livro onde um amigo íntimo me sugeriu que eu deveria despachá-lo e ao terceiro livro, rapidamente e prosseguir com outra coisa qualquer. Eu não consegui fazer isso. Eu tinha começado isto de determinada maneira e estava determinado a acabá-los de forma certa. Adicionalmente, eu tinha uma compulsão para o fazer, porque representa uma espécie de "terapia" para mim... Quanto ao aperfeiçoamento do mundo versus escrita, eu já, até certo grau, respondi a isso. O projecto começou com uma grande parcialidade a favor da construção do mundo. Até certo ponto isto foi determinado pelas minhas aptidões e experiência da altura, mas também porque o mundo precisava (e eu precisava disso psicologicamente) de ser o mais sólido possível. Esta criação do mundo foi, portanto, pesada no início porque depois foi levada através de todos os livros... E consistiu em anos de pesquisa e investigação, a quantidade de material de apoio: geológico, linguístico, económico, mitológico, botânico, meteorológico, antropológico etc etc é muitas vezes mais massivo do que os próprios livros. E até inclui um número de grandes modelos de plasticina nos quais eu explorei formações de terra e outras estruturas para me assegurar de que todas elas funcionam... Os cinco anos em que estou a trabalhar no terceiro livro, foram, contudo, concentrados nas complexidades do argumento e as minhas maiores preocupações foram literárias. RC: Quais foram(se algumas) os trabalhos, talvez livros, filmes ou videojogos, que o influenciaram a si ou à escrita de "A Dança de Pedra do Camaleão"? RP: Tudo o que eu li, vi ou experimentei influenciou a "Dança de Pedra". Eu sou bastante sério em relação a isto. Eu destilei a história que estive a ler desde que tinha 8 anos numa história e cultura que deve alguma coisa à China, Pérsia Antiga, aos Maias, Grécia, Egipto, Roma, Cartago, aos Incas, Japão etc etc... Mas também aspectos da Primeira e Segunda Guerras Mundiais etc... Mais prosaicamente eu poderia apontar para "O Senhor dos Anéis" e "Dune em particular e os livros do Michael Moorcock, nos meus anos formativos, como sendo directos antecedentes de fantasia. RC: "A Dança de Pedra do Camaleão" está repleta de momentos de incrível crueldade e traição. A própria cultura dos povos das Três Terras parece ser dura e mutilação e punições atrozes estão presentes em toda a parte. De onde é que veio a inspiração para isto? RP: A natureza humana seria a resposta curta. Basta olhar à nossa volta, estas coisas estão a acontecer a TODA a hora. Eu sou, afinal de contas, formado pelo século XX onde não existe falta de crueldade, mutilação etc. Alguma parte disto é simbólico da minha infância. Que foi bastante dura enquanto imigrante num país frio, do norte, que era muito mais brutal do que possa ser agora. Adicionalmente eu poderia salientar que é a minh a destilação de uma história do Ocidente. E dos nossos impérios repressivos e a forma como nós pilhámos o mundo... RC: As duas personagens principais dos livros, Carnelian e Osidian, são muito complexas. Carnelian parece ser muito ingénuo e relutante. Enquanto Osidian revela a sua crueldade e fome de poder. No entanto, conseguimos compreender as suas motivações. Houve um esforço para dotar estas personagens e as suas acções com todos os motivos que nos tornam humanos? RP: Eu acho que não tinha qualquer plano em relação à forma como se iriam desenvolver. Eles apenas surgiram tal como são e não imagino que possam ser compreendidos totalmente até o terceiro livro ser lido. Porém, direi que, eles representam duas partes da minha personalidade que estão em guerra uma com a outra e à procura de síntese. Adicionalmente, eu penso que eles representam os dois aspectos da nossa cultura humana: a religião e a sua compaixão contra o sedento militarismo e o capitalismo implacável. RC: Também presentes estão os temas da exploração e da repressão, nomeadamente por uma elite( os Mestres) em detrimento dos Povos das Planícies. Mas, dada a oportunidade, mesmo eles fazem aos outros aquilo que lhes foi feito. Isto é uma analogia do nosso próprio mundo? Acredita que é da natureza do homem ser corrompido pelo poder, tentar ganhar vantagens para si próprios em detrimento dos outros? RP: Pode ser visto como uma analogia para o nosso mundo e para muitos tempos e locais na história humana. Uma maneira de o ler é que os Mestres são o Ocidente, a viver num paraíso "emparedado", suportado pela exploração e violação dos povos no exterior...Quanto à corrupção, sim, acredito que nós somos todos corruptíveis e eu tento mostrar que, com as aptidões certas, qualquer um pode ser persuadido a fazer seja o que for, não importa o quão perverso... E em tudo o que esta aptidão consiste é no saber como alimentar as necessidades, desejos e fraquezas da pessoa que queremos corromper... RC: Se houvesse alguma mensagem subjacente à história de "A Dança de Pedra do Camaleão" qual seria? RP: Hmmmm... Eu não sou bom a responder a esta pergunta: existem tantas mensagens... Talvez me pudesse safar dizendo que eu seguro um espelho para a humanidade, muito do que fazemos e fizemos está lá. E é certamente acerca de como é fácil viver mal e as consequências disso... E, em última análise, acerca do quão poderosa e terrível a compaixão pode ser. Mas eu descobri que é também um mito acerca de como uma pessoa pode sobreviver à infância... RC: Não teve medo (que pudesse desagradar alguns leitores, ou impedi-los de lerem os seus livros) de colocar um relacionamento homossexual no centro de "A Dança de Pedra do Camaleão"? Todo o tema da homossexualidade não parece ser tabu nas culturas das Três Terras. Este foi outro dos aspectos cuidadosamente moldados da cultura presente n' "A Dança de Pedra do Camaleão"? RP: Sim, tive. Mas eu próprio sou gay e uma vez que o livro é, num nível, acerca da minha vida, esse elemento tinha de estar presente. A importância para mim de contar a verdade, como eu a vejo, ultrapassa em muito o meu desejo de ser bem sucedido... Embora eu gostasse de ser bem sucedido. Eu quero realmente que os meus livros tenham o maior público possível. Que autor não quer? Mas eu não vou tentar ganhar esse público tentando dizer-lhes aquilo que eles querem ouvir, em oposição ao que eu sinto que é aquilo que eu posso dizer do meu coração... E quanto à homossexualidade não ser tabu nas culturas do meu livro, isso é, parcialmente, porque não é tabu na minha cabeça...Mas, talvez mais significativamente, por que também não foi tabu em muitas culturas. Parece-me que é um sinal de verdadeira civilização que os seus membros sejam tolerantes e que até celebrem a diferença... RC: E, finalmente, quais são os seus projectos para o futuro? Planeia escrever outros livros? Está um retorno ao desenho dos videojogos fora de questão? Alguma vez consideraria escrever outro livro da mesma envergadura de "A Dança de Pedra do Camaleão"? RP: Eu tenho ideias para, pelo menos, mais 20 romances. Todas elas muito diferentes da "Dança de Pedra". Contudo, como disse anteriormente, não me vejo a mim próprio, necessariamente, restringido à escrita. Embora seja uma aptidão que eu tenha domado e desenvolvido... E seria uma pena não a usar. Numa entrevista nos anos 80 eu afirmei que acreditava que os jogos de computador desempenhariam a mesma função, no século XXI, que o filme tinha desempenhado no século XX. Eu ainda acredito nisto, mas a razão pela qual eu saí dos jogos de computador foi porque eu já conseguia ver para onde as coisas estavam a ir... Que os objectivos comerciais iriam atropelar completamente os criativos. Não que eu esteja a dizer que não existam jogos de computador a ser feitos com alto mérito artístico. Mas menos do que deveriam, na minha opinião. E também há o problema da falta de uma adequada, forte IA... Portanto, eu poderia considerar voltar aos jogos, algum dia... Se eu encontrasse alguma coisa que eu quisesse fazer e se houvesse aí alguém que me pedisse para o fazer. Quanto a um trabalho da envergadura da "Dança de Pedra", não me parece que eu alguma vez vá tentar outra coisa tão massiva... Eu não vou viver para sempre e quero produzir uma muito maior variedade de trabalho...Mas quem sabe? |
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